Direitos Humanos em Movimento: conheça a trajetória de Neidinha Suruí
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Da infância na Amazônia à defesa dos povos da floresta, conheça a trajetória de Neidinha Suruí
02/07/2026
Por: Natália Teles

Há mais de cinco décadas, Neidinha Suruí atua na defesa dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e da floresta amazônica. Sua trajetória é marcada pelo enfrentamento às invasões territoriais, à exploração ilegal dos recursos naturais e às diversas formas de violência que atingem populações da região.
Nascida no Acre e criada entre rios e territórios indígenas da Amazônia, ela conta que sua formação política e humana começou ainda na infância, muito antes de se tornar uma referência na luta socioambiental.
“Eu sempre digo que a gente cresce no mato com liberdade. A gente era completamente livre para correr, brincar no rio, criar os animais soltos. Então você cria uma irmandade com a floresta”, relembra.
Foi também nesse período que os livros e gibis que chegavam à comunidade despertaram nela reflexões sobre os processos de invasão e violência sofridos pelos povos indígenas em diferentes partes do mundo. As leituras passaram a dialogar com a realidade que observava ao seu redor, fortalecendo um sentimento de indignação diante das injustiças.
“Os indígenas eram colocados como selvagens, enquanto os militares que invadiam os territórios eram os heróis. E eu pensava: como pode alguém invadir a terra dos outros, matar as pessoas, e ainda ser considerado herói?”, conta.
Segundo ela, esse processo foi determinante para o surgimento de sua consciência política e para a decisão de dedicar sua vida à defesa dos povos indígenas, da Amazônia e do meio ambiente.
Arte, educação e militância
Ao sair da região onde cresceu para estudar em Rondônia, ainda muito jovem, Neidinha levou consigo as leituras, as memórias e o sentimento de indignação diante das injustiças sociais que já a acompanhavam desde criança.
Em Porto Velho, passou a atuar com teatro estudantil, artes plásticas e poesia, sempre vinculando a produção artística às pautas sociais e populares. Influenciada por movimentos culturais e políticos da época, aproximou-se das lutas pela reforma agrária, da atuação pastoral ligada à Igreja Católica e dos movimentos sociais da região.
“Minha pintura era voltada para a defesa dos territórios indígenas, dos povos indígenas e também dos trabalhadores sem terra. Tudo isso foi me formando enquanto militante”, afirma.
Ao longo da trajetória, a formação acadêmica passou a caminhar lado a lado com a atuação nos movimentos sociais. Graduada em História, ela aprofundou seus estudos sobre território, povos tradicionais e direitos humanos, construindo uma produção de conhecimento diretamente conectada às experiências vividas nos territórios amazônicos.
A defesa da floresta e dos povos indígenas
Ao longo da trajetória, Neidinha atuou diretamente em territórios indígenas de Rondônia e trabalhou com povos indígenas isolados. Nesse processo, tornou-se uma das primeiras mulheres a ocupar funções de liderança em atividades tradicionalmente exercidas por homens, incluindo a chefia de um posto indígena na região amazônica.
Durante esse período, participou de ações voltadas à proteção de povos indígenas e acompanhou de perto os impactos provocados pelo avanço da exploração ilegal de recursos naturais sobre os territórios tradicionais.

Ao denunciar esquemas de exploração ilegal de madeira em terras indígenas, passou a enfrentar pressões e ameaças relacionadas à sua atuação. Foi nesse contexto que, junto a outros militantes e defensores socioambientais, ajudou a fundar a Kanindé – Associação de Defesa Etnoambiental, organização criada para fortalecer a proteção dos povos indígenas, das comunidades tradicionais.
“Eu tenho muito orgulho de olhar para o território Uru-Eu-Wau-Wau e ver que ainda existe floresta em pé. Isso é resultado de uma luta coletiva de muitos movimentos sociais, indígenas, ambientalistas e trabalhadores rurais”, destaca.
Ao falar sobre as conquistas alcançadas ao longo dos anos, Neidinha faz questão de ressaltar que nenhuma delas foi construída individualmente.
“Quando eu digo que conseguimos, estou falando de todo um movimento socioambiental. Foi uma luta coletiva de indígenas, extrativistas, trabalhadores rurais, organizações sociais e muitas outras pessoas comprometidas com a defesa da vida e dos territórios”, afirma.
Os desafios de defender direitos humanos no Brasil
Durante a entrevista, Neidinha também refletiu sobre os riscos enfrentados por quem atua na defesa dos direitos humanos, do meio ambiente e dos territórios tradicionais. Segundo ela, a violência contra defensoras e defensores segue sendo uma realidade presente em diferentes regiões do país.
“Não é fácil ser defensora de direitos humanos no Brasil. A gente mexe com interesses muito grandes. E quem está entrando nessa luta precisa entender isso e construir redes de proteção e alianças coletivas”, afirma.
Ao longo da vida, enfrentou ameaças, perseguições e situações de violência em razão de sua atuação. Ainda assim, acredita que a força para permanecer na luta vem da coletividade e das alianças construídas ao lado dos movimentos sociais e dos povos da floresta.
Para ela, uma das principais lições acumuladas ao longo da trajetória é que ninguém deve caminhar sozinho.
“A visibilidade protege. E ninguém consegue seguir sozinho nessa caminhada”, resume.
Neidinha também chama atenção para a necessidade de fortalecer redes de apoio entre defensoras e defensores de direitos humanos, especialmente diante dos desafios impostos por interesses econômicos que frequentemente entram em conflito com os direitos das populações tradicionais e com a preservação ambiental.
Representação e participação popular
Sobre o cenário político brasileiro, Neidinha defende a ampliação da participação popular nos espaços de decisão, especialmente de mulheres, povos indígenas, população negra, trabalhadores rurais e movimentos sociais.
Para ela, muitos dos desafios enfrentados pelos povos indígenas e pelas populações tradicionais estão diretamente relacionados à forma como o poder político está organizado no país.
“A gente precisa de um Congresso que tenha a cara do povo brasileiro e que defenda os direitos da população, não apenas os interesses econômicos dos grandes grupos”, afirma.
Segundo a ativista, ampliar a diversidade nos espaços de representação é um passo fundamental para fortalecer políticas públicas voltadas à proteção dos direitos humanos, da justiça social e da preservação ambiental.
A universidade como espaço de disputa e transformação
Atualmente cursando doutorado, Neidinha também destaca a importância da presença de militantes e defensoras de direitos humanos na universidade. Para ela, ocupar os espaços acadêmicos é parte fundamental da disputa por reconhecimento, memória e legitimidade das lutas sociais.
“Muitas vezes a experiência dos movimentos sociais é invisibilizada dentro da academia. Então ocupar esse espaço também é uma forma de fazer a nossa luta ser respeitada”, reflete.
Apesar das dificuldades de conciliar a militância com a vida acadêmica, ela considera importante que defensoras e defensores sigam produzindo conhecimento a partir das próprias vivências e territórios.
A pesquisa que desenvolve atualmente dialoga diretamente com sua própria trajetória, refletindo sobre os desafios enfrentados por mulheres ativistas e defensoras de direitos humanos na construção de conhecimentos produzidos a partir da experiência de luta.
Para Neidinha, ampliar a presença de povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais nos espaços acadêmicos também representa uma conquista coletiva, resultado de décadas de mobilização por acesso à educação e democratização do ensino superior.
“Nós estamos lutando não só pelos nossos direitos, mas pelos direitos de todo mundo”, conclui.
A história de Neidinha Suruí demonstra como a defesa dos direitos humanos nasce, muitas vezes, das experiências vividas nos territórios e das relações construídas com as pessoas, os povos e a natureza. Entre a floresta, a militância, a produção de conhecimento e a atuação coletiva, sua trajetória revela que a luta pela garantia de direitos também é uma luta pela preservação da memória, da vida e dos modos de existência que sustentam a diversidade do país.
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